A crítica ideológica ao jornalismo esconde uma estrutura mais interessante, e mais difícil de combater: uma classe profissional homogénea, dependente de um punhado de agências internacionais, que confunde o seu próprio horizonte cultural com o do mundo.
Os temas repetidos à exaustão sobre Gaza Irão, Donald Trump, André Ventura, Bolsonaro, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, Cuba, sugerem uma questão persistente: os media são de esquerda? Há uma efetiva pluralidade de enquadramentos apesar de uma predominância sistemática de certos pressupostos que orientam o que é notícia, a ordem e o sentido que lhe são atribuídos?
Há duas respostas fáceis, e ambas erradas. A primeira, popular à direita, diz que os media são de esquerda. A segunda, popular à esquerda, diz que é a direita, ou o sistema, que os controla. Nenhuma resiste a um escrutínio sério: ambas pressupõem uma intenção e um comando central que a investigação sobre os media raramente encontra. Edward Herman e Noam Chomsky descreviam um enviesamento que não depende de ordens explícitas, mas de estruturas de propriedade, financiamento publicitário e dependência de fontes oficiais; Pierre Bourdieu mostrou como o campo jornalístico gera um habitus profissional partilhado que produz uniformidade sem necessidade de coordenação. É esta linhagem teórica que melhor explica o que se observa: uma matriz dominante que não corresponde à esquerda clássica, nem à direita tradicional, mas a uma combinação particular de posições culturais, económicas e geopolíticas, uma espécie de ideologia hegemónica ocidental, progressista nos costumes e liberal na economia.
Comecemos pelos comentadores, porque em Portugal os espaços de comentário são particularmente extensos, e neles a convergência é mais visível do que em qualquer outro lugar. A maioria situa-se dentro dos limites do sistema político vigente; posições exteriores a esse espaço, à direita ou à esquerda, são tratadas como curiosidades ou como ameaças. Os mesmos nomes circulam entre televisão, rádio e imprensa escrita, produzindo uma notável homogeneidade de perspetivas (uma espécie até de coro em que um toma sempre a posição y e outro a z, para se pensar que há dissenso, mas que são apenas divergências irrelevantes), reforçada pela dependência de fontes comuns e de agências internacionais.
Esta dependência de agências não é uma impressão de café: é uma característica estrutural do jornalismo português, documentada há quase quarenta anos por estudos sobre a própria profissão, do trabalho pioneiro de José Manuel Paquete de Oliveira ao inquérito mais recente do OberCom em parceria com o CIES-IUL e o Sindicato dos Jornalistas. A conclusão repete-se: a esmagadora maioria das redações portuguesas utiliza diariamente despachos de agências como a Lusa, a Reuters ou a AFP como matéria-prima do noticiário. O fenómeno não é português: Oliver Boyd-Barrett descrevia como um número reduzido de fornecedores mundiais concentra a definição do que é notícia e a terminologia com que circula. Na prática, a seleção do que é ou não notícia a nível global é decidida muito antes de qualquer redação em Lisboa ter oportunidade de a enquadrar de forma própria, um efeito de funil que o próprio OberCom monitoriza.
O jornalismo tradicional opera, assim, em cascata. A Associated Press e a Reuters definem a terminologia e a hierarquia do que é relevante a nível global; a Agence France Presse acrescenta o seu humanismo liberal europeu como enquadramento de fundo; e faróis editoriais como o New York Times ou o The Economist validam, respetivamente, a agenda das políticas de identidade e a ortodoxia económica. O que chega a Lisboa já passou por vários filtros sucessivos e chega investido de uma aura de neutralidade que é o produto mais acabado desta cadeia. A dependência não é apenas ideológica, é também económica: produzir informação internacional própria é caro, e recorrer a despachos de agência é mais eficiente.
A esta dependência de fontes soma-se uma segunda camada, menos falada mas igualmente decisiva: a homogeneidade sociológica da própria classe jornalística. Os sucessivos retratos sociológicos dos jornalistas portugueses desenham sempre o mesmo perfil: uma classe profissional maioritariamente detentora de ensino superior, muitas vezes em Comunicação, Humanidades ou Ciências Sociais, e fortemente concentrada nos grandes centros urbanos, sobretudo em Lisboa. O padrão não é exclusivamente português: os inquéritos coordenados por David Weaver e Lars Willnat traçam um perfil semelhante em dezenas de países, jornalistas urbanos, universitários e sistematicamente mais liberais nos costumes do que a população em geral. Este perfil não determina opiniões individuais, mas ajuda a explicar um alinhamento natural com valores urbanos e progressistas, e cria um distanciamento real face a uma parte considerável do país.
A análise por áreas temáticas permite maior precisão, e é aqui que a tese ganha nuance. Nos temas culturais, identidade de género, imigração, direitos LGBT, políticas raciais, os media de referência adotam com frequência as categorias e os pressupostos dominantes no meio académico ocidental, apresentando-os como progresso social quase por definição. É neste domínio que a perceção de um viés à esquerda encontra o seu suporte empírico mais sólido, e não apenas em Portugal: o estudo quantitativo de Tim Groseclose e Jeffrey Milyo sobre os media norte-americanos, apesar de contestado nos seus métodos, aponta na mesma direção.
Na esfera económica, porém, o padrão inverte-se quase por completo. A cobertura tende a tratar como legítimas e sensatas, as posições favoráveis ao liberalismo económico global, ao livre comércio e à estabilidade orçamental. O Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional são frequentemente apresentados como fontes técnicas e neutras, não como atores com posições próprias. Propostas de redistribuição estrutural mais ambiciosas são tratadas como de difícil execução ou associadas a riscos elevados; os movimentos sindicais têm visibilidade limitada; e a crítica ao próprio modelo de desenvolvimento capitalista raramente ocupa o centro do debate. É precisamente aqui que os filtros de propriedade e publicidade descritos por Herman e Chomsky se tornam mais visíveis: os grupos de media dependem de anunciantes e de estruturas acionistas com interesse na estabilidade do sistema económico vigente, o que inclina a cobertura para a ortodoxia.
Na geopolítica, o alinhamento com o quadro estratégico das democracias ocidentais é igualmente consistente. A NATO e a ONU são tratadas como referências de legitimidade quase incontestável, e no plano internacional aplica-se com frequência um duplo critério na avaliação de comportamentos e políticas, consoante se trate de aliados ou de antagonistas do espaço euro-atlântico. Daniel Hallin descreveu este fenómeno através da distinção entre uma esfera de consenso, uma esfera de controvérsia legítima e uma esfera de desvio, onde são relegadas as posições tratadas como ilegítimas. O apoio à NATO situa-se claramente na primeira esfera; posições que o contestam são remetidas diretamente para a terceira.
Este conjunto de padrões não configura uma ideologia coerente no sentido clássico do termo. É antes uma combinação particular, progressismo cultural, moderação ou ortodoxia económica e alinhamento geopolítico com o espaço euro-atlântico, que corresponde ao retrato sociológico da própria profissão jornalística. Chamar-lhe media de esquerda é uma simplificação grosseira. Daniel Hallin e Paolo Mancini situam Portugal no modelo mediterrânico, ou pluralista polarizado, um jornalismo historicamente próximo do poder político e menos dependente de normas profissionais autónomas, o que ajuda a explicar a forte convergência entre comentadores e redações portuguesas. A convergência é, portanto, sociológica e cultural antes de ser partidária: resulta de processos de formação e recrutamento dentro da própria classe, não de coordenação centralizada ou manipulação deliberada. Ainda assim, uma parte desta configuração deve-se também a uma certa captura institucional por parte de um establishment liberal-progressista, presente em universidades, organismos internacionais e centros de decisão cultural, que naturalizou os seus próprios pressupostos como se fossem simplesmente neutros. O critério de análise correto não é ideológico, é metodológico: clareza conceptual, comparação entre casos e aplicação consistente dos mesmos padrões a todos os lados. Existe, portanto, um conjunto de pressupostos dominantes, difuso, não coordenado e variável consoante o país, mas real e mensurável, e bem mais difícil de combater do que a acusação simples de que os media são de esquerda.
O caso português ilustra bem esta estrutura, incluindo as suas assimetrias mais desconfortáveis. Determinados temas culturais recebem atenção significativa e continuada, e o adversário está claramente identificado: o Chega, alvo de um forte consenso crítico em praticamente todo o sistema mediático, e relegado, na terminologia de Hallin, para a esfera de desvio. O Chega é, ainda assim, um caso peculiar, porque a apresentação sistemática do partido como algo de inaceitável parece ter contribuído, paradoxalmente, para a avalancha de popularidade do próprio partido e do seu líder, um efeito que a análise mediática portuguesa não pode ignorar, mesmo que a origem última desse consenso crítico esteja também ligada a posições e declarações do próprio partido.
Em contrapartida, questões económicas estruturais como o modelo de turismo, a banca, a financeirização do imobiliário, a configuração do mercado de arrendamento, o trânsito entre política e setor privado, os cargos de familiares de políticos, os favores, as cunhas, os facilitismos e certos negócios pouco transparentes são abordadas de forma episódica, muitas vezes apenas quando um escândalo se torna impossível de ignorar. Recebem, por isso, um aprofundamento sistemático muito menor. A diferença pode estar ligada à menor conflitualidade simbólica destes temas, comparada com a carga identitária de outros, ou à proximidade de interesses económicos concretos, alguns dos quais têm presença direta no próprio setor mediático, precisamente o mecanismo de propriedade que Herman e Chomsky colocavam no centro do seu modelo.
O problema democrático decorre deste mecanismo, não de uma leitura moral sobre boas ou más intenções. Se uma parte do espectro político e cultural é sistematicamente remetida para a esfera de desvio, em vez de ser discutida na esfera de controvérsia legítima, vastas parcelas da população deixam de se rever nas narrativas dominantes. A literatura sobre a relação entre media e populismo, de Gianpietro Mazzoleni a Cas Mudde, documenta este mecanismo: quando o espaço mediático trata como inaceitável o que uma fração significativa do eleitorado considera razoável, gera-se uma alienação política, a perceção de que ninguém fala por nós, que alimenta o ceticismo democrático e abre caminho a alternativas de cariz democrático duvidoso. Um espectro mediático que normaliza acriticamente um único modelo cultural, económico e geopolítico reduz a democracia a uma escolha de tonalidades cosméticas, esvaziando o debate de verdadeiros rumos estruturais. Daí a urgência de diversificar sociologicamente as redações, reduzir a dependência de agências externas e fomentar uma literacia mediática crítica, não como correção ideológica, mas como condição para que o espaço público volte a representar a verdadeira pluralidade.
João Maurício Brás - Nascer do Sol de 16.09.2026.